“9 Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros: 10 Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. 11 O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; 12 jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. 13 O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! 14 Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado.” (Lc 18.9-14)
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Introdução

Vamos iniciar o assunto proposto no post anterior dando uma olhada geral no texto.
No contexto imediato da parábola, Jesus estava indo até Jerusalém para enfrentar o clímax de sua humilhação: a morte na cruz. E durante sua viagem ele responde vários questionamentos e conta várias parábolas.
Nesta parábola Jesus pinta uma cena de dois homens indo até o templo de Jerusalém para adoração pública e fazer suas orações particulares. Algo comum em sua época.
Um era o religioso legalista e rigoroso, tido como modelo de piedade e obediência à Lei[1], o fariseu; o outro era um cobrador de impostos, tido como corrupto e pecador, o publicano.
Nesta parábola, Cristo ensinou que Deus justificou um pecador (o publicano) somente por meio da fé e não porque ele obedeceu à Lei.
Justificar significa “declarar justo”. É uma linguagem forense, judicial. É um ato declarativo de Deus. Deus está no seu papel de juiz, no qual ele condena ou justifica (inocenta) o pecador.
Nesta parábola nós aprendemos que o pecador é justificado e tornado filho de Deus somente pela Graça, somente por causa de Cristo e somente por meio da Fé. Esta é a doutrina da justificação pela fé somente. Este é o coração do Evangelho.
O problema do ser humano: Justiça Própria
Apesar de ser o coração das Boas Novas de Deus, a justificação pela fé somente é extremamente ofensiva, pois ataca o grande problema do ser humano: confiança na justiça própria.
Veja que o assunto dessa parábola é justiça, em especial justiça própria. Jesus conta esta parábola àqueles que “confiavam em si mesmos, por se considerarem justos” (v. 9), ou seja, essas pessoas achavam que estava tudo bem com elas porque cumpriam os preceitos da Lei (consideravam-se justas), cumpriam seus deveres religiosos, e por isso tinham motivos para confiarem em si mesmas. Resumindo: eram moralistas.
O moralista é aquele que se convence de que está numa posição correta diante de Deus porque suas obras, sua obediência à Lei de Deus (sua justiça), é capaz de tornar Deus favorável a ele. Ele acha que possui méritos diante de Deus.
A ideia que o moralista tem é que Deus possui uma listinha de crédito (méritos) em uma mão e de débito (pecados) na outra mão. Se você cumpre algum preceito da Lei:
ponto positivo! Se você desobedece: ponto negativo. No final das contas, Deus vai comparar as duas listas. Se a lista de crédito for maior que a de débito… BINGO! Entra no céu! Se for o contrário… bem… as opções são muitas… vai depender da cosmovisão. Algumas dizem que você fica numa espécie de antessala do céu (purgatório), outras vão dizer que você tem que viver tudo de novo pra compensar seus erros na vida passada. De qualquer maneira o pressuposto é o mesmo: se você obedece a Lei , então você tem méritos diante de Deus, portanto, você pode expiar (cancelar) seus próprios pecados. Logo, você é capaz de salvar a si mesmo.
O moralista também pensa que está numa posição correta diante de Deus, simplesmente porque existem outras pessoas que são mais pecadoras do que ele. Ele aponta para os pecados dos outros e se convence de que o pecado dele não é tão grave assim. Os outros é que merecem ser condenados.
É mais ou menos assim: “Eu nunca matei ninguém! Nunca roubei ninguém! Eu tenho uma boa família, sou honesto, sou trabalhador! Eu sei que não sou perfeito, mas existem pessoas muito piores do que eu!!”
Estas são, exatamente, as atitudes do fariseu. Ele se separa dos outros adoradores, fica sozinho (que é um dos sentidos de “de si para si mesmo” no v.11), mostrando seu desprezo pelo restante dos homens, julga o próximo e confia nos próprios méritos. Isso é exaltação própria, confiança em si mesmo, confiança em justiça própria, soberba, orgulho.
Esse é o nosso problema. Nós julgamos o próximo, confiamos em nós mesmos. Nos orgulhamos do nosso conhecimento, da nossa teologia, da nossa santidade, dos nossos dons. Temos orgulho até da nossa humildade.
O orgulho é tão profundo em nós que podemos analisar a atitude do fariseu e a sua oração egocêntrica de diversas maneiras e apontar vários pontos em que ele errou. E, no final de todas as críticas, nós pensamos assim: “Ó Deus, graças te dou, porque eu não sou como esse fariseu!”
O primeiro passo para que você entenda a justificação pela fé somente é reconhecer o seu pecado. Reconheça que você é um moralista, orgulhoso, autossuficiente: você confia no seu desempenho, na sua religiosidade, na sua moralidade, na sua justiça própria, na sua própria salvação. Além disso, você julga os outros. Arrependa-se do seu orgulho.
Por que a justificação pela fé machuca nosso orgulho? Resposta: no próximo post.
[1] Utilizarei “Lei” para me referir à Lei Moral de Deus resumida nos Dez Mandamentos.